Powerless

É muito difícil começar um texto onde as palavras se perdem pois meus sentimentos sobre o assunto ainda estão tão confusos. Ainda tá uma explosão dentro de mim, ainda não consegui digerir tudo que tem pra digerir, ainda to tentando acompanhar tudo que está sendo dito, todas as informações, to especulando mil coisas, tentando achar respostas pras perguntas que surgem a cada minuto na minha cabeça. Mas a verdade é uma só: meu ídolo foi embora, pra sempre.

Eu ouvi Linkin Park a primeira vez na vida na casa de uma tia com meus primos, todos mais velhos. Eu devia ter uns 7 anos quando minha prima colocou Hybrid Theory pra tocar e eu só me lembro de ter pensado “esses caras gritam muito”. Algum tempo passou e eu estava na casa de uma outra tia e uma prima estava dando algumas coisas embora, dentre elas um CD pirata, daquela mesma banda de um tempo atrás. Peguei na hora, não pelo som, mas porque eu conhecia uma banda que minha prima mais velha conhecia, e eu me senti “cool” por isso.

Quando criança, eu nunca gostei de Sandy & Junior, Rebelde e afins. Nunca me permiti. Meus primos não gostavam, tiravam sarro de quem gostava. Então eu não gostava também. Não era nenhum sacrifício, meus primos eram (e ainda são) minha referencia pra muitas coisas.
Gostar de Linkin Park, no começo, era um jeito de mostrar pra eles que eu também sabia ser legal que nem eles, que eu também tinha ‘bom gosto’.

O “problema” é que eu comecei a gostar, e muito, de ouvir aquele CD pirata.
Linkin Park passou a ser o papel de parede do meu quarto, de tantos pôsteres que eu tinha. Eu ia na banca toda semana comprar um novo, sempre tinha um espacinho na parede pra mais uma foto. Tinha orgulho demais de gostar de uma banda como essa. Sabia a letra de todas as musicas de cor, via DVD’s deles todos os dias, sabia o que eles gostavam, o que não gostavam, data de aniversário, nome de namorada, nome de filho, significado de tatuagens… Sabia até que o Mike Shinoda odiava quando alguém falava em terceira pessoa.
Foram blogs, cartas, desenhos, e pastas de fotos dedicadas ao Linkin Park e ao meu amor platônico, Mike Shinoda. Eu respirava Linkin Park e na escola as pessoas realmente chegaram a acreditar que meu sobrenome era Shinoda.

A banda me deu forças pra todas as fases da minha vida. Passei pelos problemas normais de uma adolescente, e alguns mais pesados, que eu não tinha que ter passado. Não foi fácil, ainda carrego as cicatrizes comigo. E Linkin Park tava lá, a voz do Chester tava lá, eles estavam me ajudando, e muito, durante todo esse tempo.
Saber que eu podia me desconectar dos meus problemas a qualquer momento e ouvir o Chester e o Mike cantar, me ajudou mais do que eu possa descrever.

Linkin Park evoluiu e eu também. Minha admiração só aumentou a cada album que eles lançavam, um completamente diferente do outro, outro ritmo, outra proposta, outra fase. Muitos não gostavam, mas eu só achava melhor a cada música nova que eu ouvia, ficava admirada com o talento deles de se reinventarem a cada album, e não perderem a essência.

Eles foram 3 vezes pro Brasil, enquanto eu morava lá. A primeira eu era muito nova, e tive que aceitar chorando o não do meu pai. A segunda, foi num festival fora de São Paulo, e como eu ainda não me bancava sozinha, não tive como ir.
Mas na terceira vez, em 2012, eu estava lá. Estava com duas pessoas muito importantes pra mim. A banda tinha acabado de lançar ‘Living Things’, album que me emociona muito até hoje.
Eles abriram o show com ‘faint’. Eu não estava acreditando que eles estavam ali, todos eles, meus ídolos, que eu admirava tanto, há tanto tempo, estavam na minha frente, cantando pra mim. Eu pulei, gritei, gritei muito. Logo depois veio ‘in my remains’, e eu não me aguentei e chorei, chorei muito. O show foi tudo que eu esperava e mais.
Finalmente, depois de tanta espera, eu estava vendo minha banda preferida pela primeira vez.

Depois disso, eu tive a oportunidade de ir em mais 2 shows deles. O último foi há um mês atrás, aqui na Itália. Ah se eu soubesse que seria a ultima vez que eu veria o Chester, a ultima vez que eu ouviria aquela voz ao vivo. Uma voz diferente, uma voz que te envolve, uma voz que transmite muito mais que uma musica, uma voz tão perfeita ao vivo quanto num CD. O show foi emocionante e incrível como os outros, saí de lá renovada, orgulhosa de gostar de uma banda que nem Linkin Park, e com a certeza de que mesmo depois de tantos anos, eles ainda eram os melhores.

No dia 20 de julho de 2017 eu estava trabalhando. Estava cuidando de 4 crianças. E enquanto eles viam televisão, eu fui checar meu celular. A primeira mensagem era da minha prima em um grupo que participamos: “Se for verdade, a Lari vai morrer”. Depois uma mensagem do meu melhor amigo: “Já ficou sabendo?” depois outra amiga: “Eu sinto muito” depois outro amigo: “Você é bem fã de Linkin Park né? pq ele fez isso?” e mais um monte de mensagens similares.
Eu não estava entendendo nada, abri meu facebook e vi em todos os portais de noticias que meu cantor preferido, da minha banda preferida, tinha tirado a própria vida.

Na minha vida, graças a Deus, eu perdi poucas pessoas próximas a mim. Eu não sei lidar muito bem com a morte, eu me considero alguém que demora pra digerir o que aconteceu. É muito difícil de assimilar que uma pessoa que estava presente há pouco tempo, já não está mais. E nunca mais estará.
Eu chorei, eu chorei muito, eu ainda choro e provavelmente eu não vou parar de chorar pelo o que aconteceu.

A essa altura do texto, dá pra entender que Linkin Park não é somente uma banda que eu gosto, dá pra entender que o papel que eles tiveram, e ainda tem, na minha vida é enorme. Então dá pra entender que mesmo eu nunca tendo conhecido, de fato, o Chester, a morte dele me abalou muito mais do que o normal. Afinal, ele estava presente na minha vida mais que muitas pessoas que eu via no meu dia a dia.
Tentar entender o que aconteceu não é difícil. Todos nós temos nossos demônios pra enfrentar, todos nós já passamos por uma fase difícil na vida, por um trauma.  Todos nós temos aquela vozinha dentro de nós tentando colocar a gente pra baixo. Pra alguns ela fala mais alto e com mais frequência, pra outros, é quase um sussurro e ela só vem as vezes. Mas ela está ali, em todos nós. No dia 20 de Julho, a voz de dentro da cabeça do Chester falou mais alto do que ele poderia aguentar.
Difícil é saber que o cara que me ajudou tanto ao longo da vida, que já me deu tanta força pra seguir em frente, que já falou mais comigo através da musica do que um amigo proximo, não conseguiu ser sua própria salvação. Me corta em pedaços saber que dor dele era maior do que tudo que ele conquistou e tinha.
Acho que eu e todos os fãs só queríamos pegar o Chester no colo e fazer tudo que ele fez por todos nós esses anos todos.
A família não conseguiu fazer ele ficar, a banda não conseguiu fazer ele ficar, os fãs não conseguiram fazer ele ficar. E então, ele foi.

Não vai ser fácil daqui pra frente, na verdade, não sei como vai ser. Não sei qual vai ser o futuro da banda, e isso me assusta muito. Mas eu espero que o Chester ache a paz que ele tanto procurou. Pois nós vimos sua luta todos esses anos transmitidas nas melhores músicas já feitas.

“When my time comes
Forget the wrong that I’ve done
Help me leave behind some reasons to be missed
And don’t resent me
And when you’re feeling empty
Keep me in your memory
Leave out all the rest.”

Lari Shinoda.

 

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3 thoughts on “Powerless

  1. Me arrepiei desde o começo do post Lari!!!
    Senti bastante o que aconteceu mesmo não sendo muito fã da banda (adoro as musicas, mas nunca fui de ficar ouvindo ou procurando saber de novos alguns e afins).
    Eh muito triste saber que ele inspirou tantas pessoas e tocou o coração de milhoes, não conseguiu pedir ajuda quando ele mais precisava.
    Como vc disse, que ele encontre a paz que tanto procurava!
    Fique bem!

    • Oie, muito obrigada mesmo! Escrever esse texto me ajudou bastante a entender o que aconteceu e aliviou, nem que seja um pouquinho, dor que está sendo perder meu ídolo. Obrigada por ter lido, de verdade! Beijos

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